Ele retira da paisagem urbana — o que tem feio e de belo, orgânico e inorgânico — das grandes metrópoles para produzir uma arte pública e plural, em consonância com a sociedade contemporânea, quando o consumo deixou de ser apenas um objeto de desejo, e passa a fazer parte da vida das pessoas. ´E uma pena que grande parte da população do planeta não tenha ainda acesso ao consumo´, lamenta Massimo Canevacci, um dos principais pensadores da contemporaneidade, que transita com desenvoltura por diversas áreas do conhecimento. O antropólogo italiano adora ´perder-se´ no espaço urbano, como aconteceu, na primeira vez que chegou a São Paulo, no início da década de 1980.A próxima parada deste ´flâneur´ do século XXI, será dia 27, quarta-feira, para apresentar, juntamente com sua esposa, a coreógrafa, Sheila Ribeiro, a performance ´Sandmann´ (Homem de Areia). ´Estamos organizando um tipo de etnografia performática´, explica Canevacci. ´Der Sandmann´, é uma obra muito significativa do escritor alemão, Ernst Theodor Hoffman, do final do século XIX. Também não escapou da criatividade do antropólogo italiano, a análise de Freud, a partir do ensaio ´O Estranho´.A partir destas obras, Canevacci e sua esposa elaboraram uma ´composição performática entre corpo/ metrópole e boneca/identidade ´, na tentativa de mostrar a relação entre eles. Ou seja, a noção das cidades contemporâneas como ´metrópoles comunicacionais sem limites´.Nesta perspectiva, o artista/antropólogo, ou simplesemente, o pensador/flâneur deste início de século, tenta desconstruir a noção de dicotomia no espaço urbano e na própria realidade.´ A boneca mostra a relação entre orgânico e inorgânico´, esclarece.Em cena, Canevacci ousa criar um texto a partir da composição performática que mistura imagens, dança e movimentos. Todos sincronizados como se formasse uma linguagem única e, ao mesmo tempo, plural. No ensaio ´O Estranho´, de Freud, investiga o que significa, na atualidade, o fetichismo visual.´ Sandmann é uma composição performática para coreografia e etnografia da proliferação contemporânea do fetichismo visual´, destaca. Nossa performance é mais ou menos a mistura de etnografia e coreografia, que mostra como entrar no corpo dos fetichismos visuais contemporâneos, ressalta o antropólogo.São trabalhados temas como, corpos, metrópoles e elementos culturais, ´para penetrar e ser penetrados no sentido de destruir estes fetiches visuais contemporâneos da arte e da publicidade, transfigurados em palavras, imagens e músicas´.Arte públicaCom um olho sempre atento aos ´fetiches visuais´ das metrópoles, Canevacci defende que a relação ´corpo e tecnologia´ modifica profundamente a paisagem das cidades que funcionam como elementos vivos dentro do espaço urbano. A arte pode ser o fio condutor para tornar as cidades ainda mais vivas.A cidade vista a partir de uma ´metrópole comunicacional ´ numa união simbiótica entre bens materiais e imateriais, encontra na arte um dos principais elementos para fazer esta ligação. ´A arte tem um papel fundamental para tornar as cidades mais abertas´, analisa o antropólogo italiano. É que a arte modifica a relação do homem com o espaço humano.Quando Canevacci fala em arte pública, deixa claro: ´Não estou me referindo à grande arquitetura ou ao grande design´. Ele se refere a uma arte feita pela juventude, que invade o espaço normal das pessoas, citando o ´hip hop´ com todas as suas formas de expressão ´A arte pública não é um produto comercial e possui uma dimensão política´, observa.
Fonte: Diário do Nordeste
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